“É fácil ser filosófico quando o outro é que está fodido.” A fala do personagem Rents do filme Trainspotting – Sem Limites, 1996, dá o tom da obra: narração irônica, ácida e carregada de sotaque escocês. Mais de dez anos após seu lançamento, o livro Trainspotting, que inspirou o filme, chega ao Brasil, onde a versão cinematográfica é cultuada como marco dos anos 90.
Danny Boyle dirigiu o polêmico filme que abordou sem maquiagem a questão das drogas. O cotidiano do viciado é contado por ele mesmo, na voz do jovem morador de Edimund, Marc Rents — interpretado por Ewan McGregor. A musa de Rents e seus amigos é a heroína. O antes, durante e depois da dose, as críticas dos pais e amigos “caretas”, o desejo de abandonar a droga e a primeira picada são filmados como uma mistura de hedonismo e arrependimento.
A matriz para o filme foi escrita pelo escocês Irvine Welsh, traduzida para o português por Galera e Pellizzari. Irvine se envolveu com heroína na juventude e seus escritos têm forte cunho auto-biográfico. A tradução respeitou a oralidade do original, repleto de gírias e palavrão, o que em alguns momentos torna a leitura cansativa e redundante.
Já o filme se caracteriza pela velocidade, tanto das câmeras quanto das falas — um desvio de atenção e o espectador perde duas a três tiradas sarcásticas. Um dos temas mais presentes é a abstinência; pouco antes de uma seqüência digna de bons thrillers de terror, Rents prevê: “O mal-estar vem aí. Suor, arrepios, náusea, dor e ansiedade. Logo vou sentir horror como nunca senti”.
A trilha sonora reforça o sentimento de angústia seguida de euforia, como na clássica cena em que Rents, ao som bate-estaca, pica a veia, filmada em close, e deixa-se afundar suavemente no tapete do bar. É uma overdose. Iggy Pop, New Order e Blur fazem parte da trilha.
Trainspotting é uma gíria que se refere à atividade de observar os trens da Escócia, anotando a hora de chegada e partida, ou seja, uma completa perda de tempo. Os personagens de Irvine buscam no prazer e nas alucinações proporcionadas pela heroína um sentido da vida exterior a própria vida como conhecemos. “Eu escolhi outra coisa que não é a vida. E pra quê motivos se tenho heroína?”, ilustra o anti-herói escocês Marc.
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